Os resultados do estudo MINDACT, publicados em agosto do ano passado na revista científica The New England Journal of Medicine, evidenciam que 46% das mulheres com cancro da mama em estádio inicial pode evitar a quimioterapia.

Ao sequenciar-se os genes do tumor com uma técnica chamada microarray, verificou-se que o MammaPrint, um teste que analisa o risco de recidiva, retorno do cancro da mama, permite alcançar um prognóstico mais preciso. Para confirmar a utilidade clínica da ferramenta para a decisão da utilização ou não da quimioterapia no tratamento do cancro da mama precoce, surgiu o MINDACT, um projeto europeu coordenado pela Organization for Research and Treatment of Cancer, um dos membros do consórcio TRANSBIG, e o Breast International Group.

Planeamento e recrutamento

Fátima Cardoso, diretora da Unidade de Cancro da Mama no Centro Clínico Champalimaud, explica que, primeiro, foi necessário arranjar financiamento, discutir contratos, direitos de proteção legal e propriedade intelectual, assim como decidir quem estaria autorizado a utilizar as amostras biológicas (tumores em parafina, tumores congelados e amostras de sangue dos pacientes), que foram guardadas num biobanco e ainda hoje estão a ser utilizadas para mais investigação.

A fase de recrutamento do ensaio clínico, cujo projeto começou a ser elaborado em 2003, só iniciou em 2007, tendo terminado apenas em 2011, um ano mais tarde do que o previsto. Ao todo participaram 6,693 mulheres, entre os 18 e os 70 anos, em 112 hospitais de nove países europeus. Por isso, para além da equipa responsável pela coordenação do estudo, foram necessários médicos e enfermeiros, cujo número é impossível de precisar.

O estudo foi financiado em 47 milhões de euros, tendo a Comissão Europeia contribuído apenas com sete milhões, pelo que foi fundamental o financiamento de outras organizações independentes, assim como da Agendia, a empresa fornecedora do MammaPrint, e de empresas farmacêuticas. Fátima Cardoso explica que, para que fosse possível concretizar o estudo, era indispensável o apoio da indústria farmacêutica e que, para tal, se adicionaram ao estudo duas perguntas relacionadas com medicamentos para a quimioterapia e hormonoterapia. Acrescenta que, contudo, nem a empresa fornecedora da ferramenta de diagnóstico nem a indústria farmacêutica influenciaram diretamente o desenvolvimento do MINDACT.

Em que casos é vantajoso fazer o MammaPrint?

O processo de investigação foi sendo adaptado aos problemas inerentes a um estudo de fase três e a investigadora garante que, na essência, o plano inicial foi seguido. As mudanças mais significativas, explica, estão relacionadas com o parceiro que realizava a randomização e com a permissão para que as pacientes pudessem ter até três gânglios positivos nas axilas. “Acabámos por perceber que era possível permitir que mais pacientes participassem no ensaio”, afirma Fátima Cardoso.

Contudo, só existe vantagem em realizar o MammaPrint se o cancro for potencialmente curável, pelo que não devem existir metástases, um ou mais focos do tumor instalados num local distante do original. Existem outros dois casos que dispensam o teste, quando os tumores são grandes, independentemente do nível de agressividade, e quando as células tumorais são agressivas, independentemente do tamanho do tumor.

O subtipo de cancro é outra questão a ter em conta. Felizmente, o cancro dependente de hormonas é o mais frequente, afetando dois terços das mulheres. É exatamente neste caso que é útil identificar a assinatura genómica. A hormonoterapia é o tratamento mais eficaz para este subtipo, mas consoante o grau de agressividade a quimioterapia pode ser ou não necessária.

Recorreu-se, para calcular o risco de recidiva, a uma ferramenta digital, o Adjuvant!Online, cuja base de dados se encontra armazenada de forma independente e, através da qual, se continuam a explorar e a extrair dados importantes. Todas as participantes foram avaliadas quer através dos fatores tradicionais, clínicos e patológicos, quer através do MammaPrint, constituído por 70 genes, selecionados numa análise a cerca de 44 mil. Se os dois métodos diziam que o risco de recidiva era baixo, não se propunha quimioterapia. Se ambos apontassem para um mau prognóstico, a quimioterapia era proposta. Mas, porque não se sabia qual dos métodos estava correto, as pacientes, cujos resultados não coincidiam, foram distribuídas em dois grupos: um sujeito a quimioterapia como terapia complementar, o outro não.

Seguimento dos casos e publicação dos resultados

Fátima Cardoso explica que, cinco anos após o início de seguimento dos casos, analisaram-se os resultados e acabou por ser verificar que “quando o método tradicional diz que o tumor é de alto risco, mas o MammaPrint diz que é de baixo, o benefício da quimioterapia é muito pequeno, à volta de 1,5%”.

A publicação dos resultados, embora não signifique o fim da investigação na área, era indispensável para a validação do ensaio clínico. Fátima Cardoso afirma que, mesmo que os resultados fossem negativos, “para além de fazer parte das regras éticas, a revisão por alguém independente, que seja perito na matéria, é essencial.” Acrescenta que, submetido o artigo, os revisores pediram para que os resultados fossem colocados em perspetiva, sendo necessário explicar a sua utilidade clínica na atualidade, uma vez que o estudo foi desenvolvido há 10 anos atrás.

Após a publicação, quer a revista científica quer a Comissão Europeia como a própria organização da conferência em que os resultados foram apresentados, fizeram questão de disponibilizar digitalmente comunicados de imprensa. Os jornalistas de ciência e os meios de comunicação que costumam seguir congressos de oncologia consideraram a descoberta importante, pelo que acabaram por disseminar a informação. O Observador, o El País Brasil, o El Mundo e a Forbes são alguns dos meios de comunicação que noticiaram o estudo.

Os resultados do MINDACT representam mais um passo em frente. Utilizando apenas os métodos tradicionais, é possível existirem dois casos cujo prognóstico é igual ou semelhante, mas perante o mesmo tratamento os pacientes reagirem de forma completamente diferente. O novo teste permite tirar as teimas. Atualmente, quando aparecem doentes consideradas tradicionalmente de alto risco, é possível pedir o MammaPrint e, no caso de um bom prognóstico, são apresentados os resultados para que a paciente possa decidir. “Existem pessoas para quem 1% de benefício é suficiente para fazer quimioterapia.”, esclarece Fátima Cardoso.

Apesar do sucesso, sabe-se que não é nem pode ser o passo final. A investigadora salienta até que “não há nada na medicina que seja 0% ou 100%. Temos de continuar a investigar e a tentar compreender melhor quais os tumores que precisam de quimioterapia e quais são os que precisam de outro tratamento.”

Atualmente o teste custa cerca 2,500 – 2,800 euros e nem o SNS – Serviço Nacional de Saúde nem a maior parte dos sistemas ou seguradoras reembolsa os doentes, com exceção do Instituto de Ação Social das Forças Armadas e a Caixa Geral de Depósitos. Fátima Cardoso espera que, com um maior nível de evidência, “haja uma vontade [tanto da parte do SNS como das seguradoras] de pagar, até porque permite poupar dinheiro, ao subscrever substancialmente menos quimioterapia, com todas as boas consequências para os doentes e para a sociedade.”

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Esta notícia foi elaborada no âmbito do seminário de Ciência e Cientistas, no primeiro ano do primeiro semestre do Mestrado de Comunicação de Ciência da FCSH/NOVA.
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